REGISTRANDO MEMÓRIAS
Contar e ouvir histórias é a mais antiga forma de ensinar sobre a vida. Ao longo do tempo, as novas gerações descobrem tradições, eventos ruins e bons, consequências e atitudes convenientes. Nas histórias descobrem suas raízes, os feitos de seus antepassados; como viviam, como enfrentavam dificuldades ou como divertiam-se. A experiência dos mais velhos era compartilhada por gerações como um bastão de força e generosidade. A interação entre indivíduos de diversas idades reforçava laços, respeito e cuidados. A complexidade social que vivemos hoje tema causado rupturas entre gerações, entre grupos sociais ou, de uma forma geral, entre indivíduos da mesma comunidade. Minada pelo sonho de eterna juventude "vendido" pela mídia, a ideia de velhice transformou-se num pesadelo.
James Hillman, (2001) em seu livro “A Força do Caráter” afirma que a principal patologia da velhice é a nossa ideia da velhice. Num enfoque mais amplo, podemos afirmar que não apenas é a ideia que os outros fazem da velhice, é a ideia que os velhos fazem de si como tal. Não temos como mudar comportamentos de um sistema inteiro mas podemos levar suporte aos grupo enfraquecidos, começando por conscientizá-los de seu valor e do imenso tesouro que carregam em suas memórias.
As lembranças têm papel fundamental para a inserção social do indivíduo e para a construção da história e da preservação da cultura de um povo. Idosos constituem verdadeiras fontes de conhecimentos que precisam ser repassados às gerações mais novas, podendo com isto, dar uma imensa contribuição à sociedade. As pessoas vão registrando na memória fatos de toda a natureza. Com o passar dos anos acumulam histórias de vida e experiências de fatos vividos, problemas resolvidos ou não, descobertas e questionamentos que merecem um novo olhar. Quanto mais avançam em idade, mais histórias têm guardadas em seus “livros íntimos”. Essas lembranças, se não foram contadas e registradas, serão perdidas, causando enorme prejuízo às gerações futuras. Ainda lembrando Hillman, a palavra “old” do inglês (velho) tem raiz indo-européia que significa “nutrir”, remetendo ao conhecimento ancestral transmitido, por gerações, aos mais jovens. Nas sociedades contemporâneas, tendemos a associar velhice com proximidade da morte ao invés de uma iniciação para outro modo de vida. A conseqüência nefasta desta associação é a morte do espírito antecedendo a morte do corpo. Ora, estamos vivos enquanto a morte não acontece.
As transformações que ocorrem ao longo de uma vida agregam histórias ao mesmo indivíduo: é o mesmo caráter que percorre estradas diferentes e toma diferentes rumos. Cada um de nós tem ou é um caráter específico que permanece o mesmo em sua energia, seu movimento e sua dinâmica peculiar. Recolher das memórias guardadas os fragmentos da vida é um caminho para a nova montagem. Esta tarefa assumida por atividades arteterapêuticas, que têm eficácia ampliada quando envolve grupos, significa investir em companheirismo, liberdade, artes, silêncio, simplicidade e segurança, reforçando laços de pertencimento e propiciando qualidade de vida aos velhos.
Nas palavras da grande atriz italiana Ana Magnani - “Não escondo nenhuma ruga. Paguei por cada uma delas” revela-se a visão positiva e afirmativa da velhice como uma vitória. É nisto que quero investir como arteterapeuta. Nesta tarefa, conto com um aliado poderoso – o Livro de Artista. Mas este é um assunto para a próxima postagem.

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