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Pintar, colorir, criar - o que está mudando?


O mundo em mudança
Publiquei esse texto em 2014, quando o Artificis completava 25 anos de atividades. Hoje, revisando o blog pensei que seria importante atualizar essa postagem e republicar. Nesses 6 anos, pouca coisa foi acrescentada ao meu trabalho, mas, certamente, o desafio permanece.


Página de Livro de Artista em processo.


          Pintar, inventar imagens, colorir, criar, são ações que envolvem todo tipo de sentimento, desde a angústia inicial, quando nos deparamos com o papel ou a tela em branco, até a sensação de terminar a obra, às vezes indefinida às vezes eufórica. Emoção é presença constante no ato de criar. É como se a vida se renovasse constantemente através de linhas, manchas, cores ou garatujas que jogamos na imagem. É ao mesmo tempo um descobrir e um renovar de ideias que nos conecta com um lado mágico de nós mesmos. 
        No meu trabalho de ensinar, sou constantemente envolvida por esta atmosfera que conta histórias, mostra um pouco da alma e da fantasia de cada aluna ou aluno e agradeço por todas as histórias que li, por todas as que consegui contar através de imagens. Cada linha ou pincelada é um pedacinho da vida que fica registrado em forma de flor, de caras coloridas, de manchas claras ou escuras. 
        Nestes 25 anos de ateliê, produzindo ou ensinando, uma parte significativa da minha vida foi acontecendo, cercada de carinho e criatividade. Agora, em tempos de internet, computação gráfica e de uma cultura saturada de imagens, é preciso repensar o ensino da arte de desenhar ou pintar e de criar imagens. Temos a nossa disposição recursos nunca antes imaginados que, de alguma maneira sutil, nos prendem ao mundo virtual. Alguns desses recursos nos fascinam e iludem, criando uma outra arte, sobre a qual não temos controle já que, no mundo virtual, tudo fica por aí, na nuvem. É preciso um pensar sobre esta realidade virtual, impalpável, incontrolável, mas rica em oportunidades; pensar este que envolve relações humanas, cada vez mais distantes e frias. Imaginava como seria uma aula de desenho virtual.           
          Como abrir mão daquele contato mágico de troca de emoções e de acompanhamento traço a traço das aprendizagens? Ainda falta muito para que consigamos conciliar este dois mundos - real e virtual - numa nova forma de viver em que não percamos nossa humanidade e em que o mundo real não seja mascarado por fotos ou vídeos em que tudo parece não nos dizer respeito porque está distante ou porque é apenas uma imagem. Vejo com preocupação o desgaste das belezas do mundo, mas com preocupação maior ainda, o ávido consumo de eventos trágicos que parecem menos graves apenas porque pessoas demonstram seu pesar em redes virtuais. Viver num mundo cada vez mais alienado da realidade é um perigo que nos assombra a todos e nos expõe ao individualismo desenfreado, no qual já não há verdadeiros sentimentos de solidariedade, de trocas afetivas diretas. Em tempos de pandemia e de isolamento social precisamos repensar esta nova realidade social e buscar caminhos de conciliação entre a tecnologia e o abraço, entre a rapidez e a calma, entre real e o virtual, antes que também nós, seres de carne e ossos, emoções e sensações, nos transformemos em nuvens.
                   Não será uma tarefa fácil, mas o esforço vai valer a pena. 

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