Pular para o conteúdo principal

Reflexões sobre tempos mais ou menos confusos.

Reflexões sobre tempos mais ou menos confusos.

Não sei se estou velha demais para acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas e sociais ou se são tantas e tão velozes essas transformações que poucos terão a possibilidade de acompanhar esse trem. A verdade é que tenho a estranha sensação de estar deslocada no tempo e no espaço. Não é nenhum mistério que comunicar-se tem sido, desde a pré-história, uma função das mais complexas. A linguagem é apenas o instrumento básico desta função e, sem dúvida, insuficiente. A entonação de voz, o olhar, a expressão corporal do falante e do ouvinte, são elementos complementares, talvez dispensáveis, mas sempre enriquecedores do entendimento entre pessoas. Um livro, um artigo de revistas, uma crônica, substituem estes elementos visuais por uma narrativa coerente, em que as interpretações enganosas são reduzidas e até mesmo eliminadas pelo conhecimento do contexto e pela qualidade da escrita. Mas não vejo como chegar a uma compreensão mais profunda entre as pessoas quando reduzimos a comunicação a meia dúzia de figurinhas e algumas poucas palavras, quase sempre alienadas de qualquer contexto.
Ao longo de muitos bate-papos nas redes sociais tenho percebido que só posso dar um significado verdadeiro, por exemplo, à expressão “oi” quando conheço minimamente a pessoa com que estou falando, e ainda assim, este simples “oi” pode não dizer nada sobre o estado de espírito dessa pessoa. Outro dia presenciei uma despedida entre duas amigas que conversavam na calçada em frente a minha casa. Depois de alguns minutos de conversa uma delas foi para a porta do carro e, enquanto abria, abanou de longe para a outra que estava na calçada e disse _ ”Beijo, me liga”. Ora, se eu estou conversando com uma amiga, cara a cara, costumo despedir-me com um abraço direto e um beijo ou no mínimo um aperto de mão. Não faz sentido retirar-se e mandar um beijo de longe, a menos que uma das partes seja portadora de algum vírus da moda, ou que seja uma conversa entre pessoas desconhecidas. Mandar um beijo à distância é um hábito moderno, herdado das “tele” - comunicações. Não nos tocamos mais, não nos olhamos mais e, com certeza, estamos perdendo uma parte essencial de nossa humanidade. É como se as relações humanas estivessem transformando-se num vídeo game assustador. Por que assustador? Porque a qualquer momento podemos desligar a máquina; porque não nos ligamos afetivamente às personagens do jogo; porque o jogo foi criado por alguém que não sabemos quem é nem onde pretende chegar. Posso dar mais uma razão – porque todos necessitamos de um abraço amigo, de um olhar solidário, de afago no cabelo ou de, simplesmente, sentir a presença amiga de pessoas queridas.
Mas toda essa reflexão foi um caminho necessário para chegar ao ponto principal de minha conversa comigo mesma. Qual é o meu papel nesta nova realidade? Onde e como inserir-me no mundo novo? Ainda não tenho resposta para esta inquietação. É preciso pensar e repensar antes que o cansaço vença a curiosidade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pintar, colorir, criar - o que está mudando?

O mundo em mudança Publiquei esse texto em 2014, quando o Artificis completava 25 anos de atividades. Hoje, revisando o blog pensei que seria importante atualizar essa postagem e republicar. Nesses 6 anos, pouca coisa foi acrescentada ao meu trabalho, mas, certamente, o desafio permanece. Página de Livro de Artista em processo.           Pintar, inventar imagens, colorir, criar, são ações que envolvem todo tipo de sentimento, desde a angústia inicial, quando nos deparamos com o papel ou a tela em branco, até a sensação de terminar a obra, às vezes indefinida às vezes eufórica. Emoção é presença constante no ato de criar. É como se a vida se renovasse constantemente através de linhas, manchas, cores ou garatujas que jogamos na imagem. É ao mesmo tempo um descobrir e um renovar de ideias que nos conecta com um lado mágico de nós mesmos.          No meu trabalho de ensinar, sou constantemente envolvida por esta atmosfera que conta histó...

O livro do M'boitatá

    Seguindo minha trajetória por livros de artista, apresento minha primeira versão de uma lenda quase universal que, em muitos povos antigos surgiu, provavelmente,  como explicação de um fenômeno natural o FOGO FÁTUO. Nas crenças indígenas brasileiras, ele aparece como M'boi tatá - A Cobra de Fogo. A palavra M'b oitatá , na língua Tupi-Guarani, significa cobra ( boi ) de fogo ( tata ). "O M'boitatá ou Boitatá  A lenda do Boitatá sofreu muitas modificações ao longo do tempo, e portanto, reúne diversas versões. Assim, dependendo da região do Brasil, o nome do personagem pode variar: Baitatá, Biatatá, Bitatá e Batatão. Numa das versões da lenda, uma grande cobra vivia adormecida num imenso tronco e ao despertar faminta, resolveu comer os olhos dos animais. Cada vez mais ela foi emitindo uma grande e intensa luz, tornando-se uma cobra de fogo. Ao proteger a floresta, ela assusta as pessoas que vão às matas durante à noite. No norte e nordeste do Brasil, a imensa c...

ENERGIA

ENERGIA      Energia - palavra cheia de signficados, escorregadia, nervosa. De origem latina - energia, do grego - enérgeia que quer dizer "força em ação", (por oposição ao grego "dýnamis" - força em potência). Formada por energés, de en em e érgon, trabalho, obra. A energia constitui o substrato básico do universo e de todos os processos de transformação, propagação e interação que nele ocorrem... Sob o ponto de vista do referencia humano podem identificar-se dois estado básico da energia: potencial e cinético. O primeiro significa energia armazenada, disponível a qualquer instante. Por mecanismos variados a energia potencial desdobra-se em cinética, palavra grega kinesis que significa movimento.      Mas o que tem isto a ver com arte? Na minha visão de arte, tudo! Arte é energia. Potencial na medida em que está aí a espera do leitor/observador que vai decifrar a mensagem transformando-a em movimento. Arte exige energia do criador e do observador. Compõe-s...