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Pro dia nascer feliz

             Ainda não sei se sou uma blogueira preguiçosa, ou se não tenho encontrado muita coisa para dizer. Faz um bom tempo que não publico postagem nova. Pois bem, hoje fiquei por mais de uma hora hipnotizada frente ao programa "PRO DIA NASCER FELIZ, do Canal Curta. Numa abordagem limpa e direta, o programa mostrou um pouco da realidade educacional brasileira nos anos 2005 a 2006, abrangendo escolas públicas do mais pobre dos municípios do pais ao mais rico, com uma passagem rápida por uma escola de classe média alta em SP. Não assisti o programa desde o início, por isto deixo os créditos apenas com o Canal e o título do programa. Oportunamente vou completar esta informação, mas não consegui deixar passar esta oportunidade para expressar minhas preocupações e minhas esperanças quanto à educação no Brasil. 
           Uma jovem da escola pública de uma das regiões mais pobres do país foi a primeira a chamar minha atenção ao ler um texto de sua autoria. Uma maravilha de escrita, tão criativa quanto correta, a ponto de fazer com que os professores duvidassem de sua autoria. Alí a maior violência é a pobreza que cria incertezas quanto a simples sobrevivência do dia-a-dia. A escola enfrenta sua função com os recursos escassos que possui. Professoras, crianças e jovens superam a desesperança com sonhos e criatividade. Da mesma escola, uma outra aluna pergunta ao entrevistador: "Será que eu posso fazer alguém chorar com o que escrevo?" Eu chorei! Enquando a menina falava, a tristeza enchia seu olhos e os meus de lágrimas. No meu caso, lágrimas de emoção, de tristeza mas, também, de esperança. Como negar um futuro a estas crianças que nada possuem além de um grande talento e de força criativa? Numa escola de periferia de uma grande cidade, foi permitida a presença durante um conselho de classe. Era visível o esforço de cada professor ou professora para avaliar, com justiça, a aprovação iou reprovação de um aluno cuja conduta causava preocupações. A discussão sobre o caso abriu uma pequena fresta que mostrou um pouco das dificuldades profundas enfrentadas por uma classe de trabalhadores injustamente desvalorizada. O garoto foi aprovado com base no argumento de uma professora: este garoto teve uma forte mudança de comportamento para melhor, durante este ano. Seus resultados não foram ruins. Se for reprovado, poderá ser um desestímulo para que continue melhorando. Sugiro sua aprovação e acompanhamento durante o próximo ano. Sugestão aceita.
              Numa outra escola, outra realidade - a força da violência urbana supera a pobreza a tapas, quando não a facadas. Uma jovem de apenas 16 anos, entre as muitas e muitos que enfrentam violência doméstica, assédios, agressões urbanas de todo tipo (assaltos, drogas, assassinatos) brigou com uma colega de escola. No dia seguinte atacou a colega a facadas no corredor da escola. O entrevistador pergunta: "Por que escolheu o corredor da escola para brigar?" Ela responde: Porque eu queria que todos mundo visse. Eu queria deixar ela caída no corredor pra que todo mundo visse". "Mas e a vida dela?" Resposta: "Um dia ia acabar mesmo, só adiantei. Não era pra ela morrer, mas morreu..." Desta vez, chorei pelas duas. Uma que perdeu a vida aos 16 anos e a outra que nem mesmo recebeu ou assimilou o valor da vida. Duas realidades duras de uma sociedade que está perdendo a alma.
              No outro lado da moeda, uma escola particular da cidade mais rica do país, São Paulo. O entrevistador conversa com meninas de 16 anos, segundo grau. Pincei algumas frase de uma longa conversa. 
"Eu gostaria de fazer algum trabalho voluntário, sei lá, ajudar as pessoas que não tem nada". 
"Ajudar já é colocar-se como superior, e não somos superiores, somos iguais"
"Nós vivemos numa bolha (social), não sabemos nada da vida dessas pessoas (pobres)"
"Eu fico pensando que para fazer trabalho voluntário vou ter que abrir mão de alguma coisa que eu faço, tipo natação, ioga ou inglês"
                O entrevistador pergunta a uma menina, que se sente esquisita porque os colegas dizem que ela é crente (estudiosa), porque ela se cobra resultados? Resposta: "Eu não me cobro resultados, me cobro o processo. Gosto de estudar. Uma outra jovem reclama: "Meu pai não me conhece. Ele e minha mãe vivem atrás do dinheiro. Sinto falta de um abraço, de uma conversa..."

                O programa vai terminando com imagens dos rostos de vários jovens que participaram. Em seus olhares vejo tristeza, curiosidade, desafio, revolta, esperança, perguntas, ironia e sempre esperança. Penso em tudo que mudou desde 2006. Penso em todas as manobras políticas que levaram nosso pais ao que estamos vendo hoje: revolta, ódio de classes, rivalidade política, descontrole absoluto da mídia, desesperança, desemprego, radicalismos. Nesses 10 anos tudo mudou e não parece que mudou para melhor. Há um jogo de interesses contaminado pela ganância e do salve-se que puder. Sempre li que da crise saem as soluções. Em nome desses jovens e de suas esperanças, em nome desses jovens e de seus talentos e em nome de todos os envolvidos com a nobre tarefa de educar, eu espero que brasileiras e brasileiros não se deixem levar pela campanha da divisão. Espero que pais assumam sua tarefa de passar para seus filhos valores como respeito, amor próprio e amor pela vida em todas as suas formas, gentileza e carinho. Espero que escolas sejam lugares de acolhimento e respeito, onde os jovens descubram a magia de aprender a aprender.  Somos um povo que quer o melhor para todos.  Confesso que já havia perdido a esperança de ver justiça verdadeira mas, apesar dos erros que têm feito profundos estragos nas novas gerações, ainda há um brilho de ideal no olhar de muitos jovens. Ainda aposto em jovens pobres que escrevem com alma e competência, e em jovens ricos que têm consciência de que é preciso sair da bolha. Não somos direita e esquerda. A realidade é uma só e se parte da sociedade brasileira ficar à margem do bem estar social toda a sociedade perde. 


                

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