Pular para o conteúdo principal

Mallarmé e sua visão antecidada do livro interativo.

Quando optei pelo Livro de Artista como forma de expressar formas e temas, minha curiosidade por tudo o que se refere ao tema "livro" foi aumentando no mesmo ritmo que aumentava meu fascínio por esta forma de arte. Numa de minhas buscas encontrei este texto de Ronaldo Entler, muito interessante sobre Mallarmé e seu "LIVRE". Peço licença ao site Arte Acaso para reproduzi-lo na íntegra.



Texto inédito, produzido originalmente para o site Arte Acaso.

O livro infinito de Mallarmé
Ronaldo Entler, 2002

Apesar de sempre ter sido um objeto de culto - como receptáculo do conhecimento - o livro se constituiu historicamente como elemento neutro, mero suporte para a palavra. Para a poesia, seu maior rapport artístico, o livro era ainda a situação intermediária e provisória do texto que, com sua cadência, sonoridade, rimas, visava à palavra falada, mais do que a escrita.
Talvez tenha sido Mallarmé o primeiro a pensar o livro como algo mais do que um recipiente neutro para a linearidade da escrita, ao sugerir uma nova forma poética. Ao final de sua vida, deixou inacabado o projeto de seu Livre, um trabalho pretensioso que deveria conter infinitas possibilidades de leitura. Mais do que isso, deveria ser o livro definitivo, um poema-repertório que contivesse potencialmente todos os poemas, que jamais pudesse ser lido duas vezes da mesma forma e, portanto, que não jamais se esgotasse. Apesar de ser um projeto inacabado, através dele, Mallarmé prenunciou alguns objetivos recorrentes em nossa arte contemporânea.
Ele rompeu a barreira das especificidades das artes: o texto para literatura, a imagem para a pintura, o som para a música. O Livre trabalharia o texto como forma gráfica, com tipos e tamanhos variáveis, sugerindo a leitura como apreensão de uma estrutura visual, onde o branco da página seria também elemento significante.
Ele lança (apesar de antecedentes menos expressivos) a questão da interatividade. Ao não determinar uma sequência fechada para percorrer o Livre, sua obra só se concretizaria nas escolhas de um leitor, que se colocaria então no papel de um co-autor. Sua obra ainda manteria a condição de matéria-prima: os versos como repertório para outras tantas escrituras.
Ele rompe com a bidimensionalidade do texto. O Livre não deveria ser lido da esquerda para a direita, de cima para baixo, folheando suas páginas uma a uma: “le livre est pour ce lecteur bloc pur”, falava Mallarmé num de seus versos-comentários. Ele deveria ser manipulado como um objeto, um bloco a ser esculpido, visto não na superfície da página, mas em sua profundidade.
Um esboço desse trabalho já havia sido proposto no poema “Un coup de dés”, onde Mallarmé trabalhou com diferentes tipos, e explorou as possibilidades de sentido da página em branco. Esse poema já revela uma não-linearidade, reversível uma reversibilidade. Ele começa (se é que se pode falar em começo):

Un coup de dés jamais n’ abolira le hasard  
excepté peut-être pour une constellation

Seu próprio texto é um lance dos dados, com infinitos trajetos que possibilita, suas palavras são pontos luminosos soltos no espaço que apenas ganham forma como uma constelação: uma ligação arbitrária desses pontos que pode gerar uma figura, a exemplo das constelações mitológicas. E o poema termina:

Toute la pensée emet un coup de dés

Assim, Mallarmé remete ao primeiro verso, propondo que a leitura recomece, questionando a necessidade de um poema ter, então, começo, meio e fim.  Ele "confere reversibilidade, da capo, rearmando o problema ad infinitum".
O Livre deveria aprofundar essas possibilidades, levá-las ao limite. Apesar de Mallarmé ter esboçado todos os seus conceitos, aparentemente, tratava-se de um projeto utópico. Durante muito tempo acreditou-se que o Livre nunca havia passado de um sonho, um pretexto para discutir a poesia, e em cuja concretização nem o próprio Mallarmé deveria acreditar. Foi apenas recentemente que se soube, através das pesquisas do filólogo Jacques Scherer (Le Livre de Mallarmé, 1957), que essa obra estava realmente sendo redigida, quando Mallaemé morreu, em 1898.
É certo que o conceito do Livre era um tanto mais avançado do que as técnicas disponíveis em seu tempo. Como sugere Arlindo Machado, ela antecipava, de alguma forma, um potencial de não-linearidade que apenas as tecnologias eletrônicas poderiam trazer. Em todo o caso, Machado aponta todo um percurso da literatura contemporânea onde o sonho de Mallarmé se atualiza: o poema combinatório de Raymond Queneau, os poemas-imagens dos concretistas, os poemas holográficos de Julio Plaza e, por fim, o hipertexto, a informação interativa do computador que pode ser acessada em ordens diversas, em páginas, em camadas, em sobreposições sintetizadoras de significados. Na indeterminação que Mallarmé esperava para seu livro, ele antecipava a flexibilidade que hoje está contida na ideia de programa, de software.
Enfim, Mallarmé deixou o fundamento de um livro que não é mero suporte para a arte, mas produto dela. Como objeto, ele não tem a função provisória de ser o guia para a concretização sonora do poema, ele é um mapa que se revela labirinto: ele se constitui num jogo (no duplo sentido da palavra jogo, é lúdico e impreciso) onde, perdendo-se e encontrando-se, o leitor percorre um trajeto que demarca também uma estrutura visual complexa, “a conquista da quarta dimensão, um tempo einsteiniano”. O Livre também não representa o anseio de perpetuação do conhecimento que deu origem à escrita, ele dá ao livro uma flexibilidade, um potencial de desvirtuamento ainda maior do que o da oralidade: institui na literatura a liberdade própria do pensamento, sempre emissor de um lance de dados.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Deixando voar uma borboleta

Criar um livro que não lê mas vê.       Sempre que inicio um livro de artista começo questionando esse termo. Na minha concepção de desse tipo de obra, o termo adequado seria LIVRARTE. Livre, livro, livrar, voar na arte. Este pequeno "livrarte" surgiu da ideia de voo. Não um voo qualquer, mas aquele voo que sonha. Aquele voo que um dia acontece, mesmo que seja numa outra forma. Quem mais representa isto do que uma borboleta, o símbolo da renovação, ou do renascimento? Livre para escolher a forma, veio a angústia de formatar leveza e liberdade atreladas a um livro. Encontrei do formato pop up a solução apropriada para voar. Foi um voo incerto, tímido, ainda preso a um fita, mas voei com a persistência do "gusano" dessa lenda belíssima que compartilho com vocês.    "LA FUERZA DE LOS SUEÑOS"      Había una vez un gusano que se había enamorado de una flor.  Era por supuesto, un amor imposible, pero el animalito no quería seducirla   ni ...

POR QUE DESENHAR?

O texto abaixo, escrito por Fabio Mestriner, aponta o significado do desenho desde a pré-história até os dias de hoje. Dele selecionei apenas os aspectos mais significativos que, ao meu ver, apontam o valor do desenho de forma clara e abrangente. Desenho a bico de pena, 50x50cm - 2007 Autor: Jane Maria Godoy B.   O INESTIMÁVEL VALOR DO DESENHO   01/12/2015  ARTIGO   POR  FABIO MESTRINER Embora possa haver dúvidas e diferentes interpretações sobre suas intenções, o gesto está lá, gravado na pedra do tempo como registro indelével de que ali estiveram homens. Ainda que primitivos e no início de sua jornada, eles existiram e deixaram as toscas marcas que os incluíram na história da humanidade. Os petroglifos, sinais ou figuras singelas gravadas na rocha são considerados as primeiras expressões deixadas pelo homem pré-histórico. Algumas destas marcas são imagens reconhecíveis, é possível perceber homens e alguns de seus objetos, animais, o sol, a lua, as est...

Em busca de caminhos em tempos de mudanças

Como caminhar por difíceis caminhos, as vezes escuros, as vezes íngremes, as vezes isolados? O mundo dividido em duas direções, como se fosse uma linha única, esquecidos que estamos de que o espaço é multidimensional e são muitas as direções possíveis. Talvez a primeira atitude seja parar, respirar fundo e olhar em todas as direções com olhos atentos. Descansar dessa realidade confusa, que nos empurra em direções opostas, é condição para escolhermos caminhos mais claros e mais empáticos. Não podemos abraçar? Não, mas ainda podemos falar. Reunir a família pode? Na maioria dos casos não pode, mas pode lembrar de ligar, mandar mensagem, deixar claro que "EU ESTOU CONTIGO, TE QUERO BEM, VAMOS RESISTIR JUNTOS. Não pode aglomerar? Também não, mas pode estar junto usando as devidas precauções. Não temos governos competentes? Lamentavelmente não, mas temos livre arbítrio para buscar o que precisamos, para exercitar a empatia que nos torna mais humanos, mais solidários e, com certeza, meno...