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Tempos difíceis

"A espécie humana não pode manter sua unidade social sem alguma força que crie uma ordem. A lei e a arte são as forças da cultura que unem os homens como indivíduos, na independência e na liberdade. As forças em ação, numa civilização sem cultura, agrupam os homens em massas, pelo poder apenas da força, sem levar em conta a independência, a liberdade, a lei e arte." Pestalozzi

          Em meio a tantas notícias sobre decisões político-econômicas que privilegiam os cortes de verbas na direção da cultura e da educação formal, impossível não pensar nas consequências que pesarão sobre uma sociedade ignorante e facilmente comandada pelos pequenos grupos de interesses que governam em proveito próprio. Infelizmente, quando penso "ignorância" percebo já que não é mais privilégio de uma classe muito pobre, sem recursos, nem econômicos, nem físicos para buscar informação. Ignorância é um problema que acompanha uma nova classe social, formada por aqueles que, seguindo o canto da sereia - compra, compra, compra, você não pode viver sem isto - correm atrás de qualquer caminho em busca de dinheiro suficiente para atender ao chamado. É preciso ganhar muito para comprar aquela TV de muitas polegadas, aquela calça da grife "da hora", aquele brinquedo sem o qual seu filho não será bem visto na escola.
          Desinformadas, pressionadas pelo consumo de bens, na maior parte supérfluos, sem tempo para respirar em liberdade, fora dos limites dos espaços de trabalho ou de suas moradias, as pessoas acumulam frustrações e, com elas, doenças de todo tipo. O mal dos tempos é a depressão? Tem um medicamento de última geração para "resolver" o problema. Haja canseira para conquistar o direito de pagar o tratamento, porque estas soluções são vendida por um alto preço. Escolas já não conseguem dar conta do acúmulo de funções a que foram levadas pela ausência, ou pelo despreparo de pais, que jogam nos bancos escolares as suas próprias responsabilidades na formação moral das crianças. Nos hospitais e emergências médicas, pessoas aglomeram-se a espera de um atendimento que pode levar até mesmo dias, gerando pressão insuportável sobre pacientes e equipes de atendimento. 
         Há uma eminente explosão social, por enquanto presa num turbilhão de emoções desencontradas, confusas e sem direção definida. A saída mais fácil é encontrar culpados. Culpamos o governo, o sistema (seja qual for a ideia que temos disso), o vizinho, a globalização e outras forças ocultas. Só esquecemos de olhar para nossa própria responsabilidade. Não tiro dessas instâncias a responsabilidade que lhes é atribuída, mas não ignoro que pertenço a uma minoria que teve acesso à informação, teve formação ética e moral em casa e teve capacidade para absorver essas benesses. Mas este fato, longe de encher-me de orgulho, enche-me de responsabilidades. Preciso deixar claro que a formação básica que envolve princípios ou valores essenciais, independe de informação. Pessoas de profunda consciência moral fizeram parte de minha história e não tinham escolaridade além dos anos básicos. Mas foram tempos em que nem TV, nem internet, nem mesmo jornais, impunham suas opiniões e vendiam felicidade em troca da compra de bugigangas. Conhecendo a força extraordinária do processo de condicionamento fartamente usado pelos meios de comunicação, impossível evitar profunda preocupação com o rumo que a sociedade tomou. Talvez ninguém saiba com clareza qual a melhor direção a seguir, mas é dever de todos os que são capazes de pensar, com um mínimo de liberdade em relação a estas forças, ao menos juntar experiências e buscar rumos mais harmoniosos. Tomara que eu tenha aprendido o suficiente em tantos anos de vida, para ser alguém capaz de somar positivamente nessa busca.
               

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