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Eleições - perguntas que eu não fiz

Quando a cabeça faz muito barulho fica difícil pegar no sono. o jeito é pegar a caneta e rabiscar no papel a frustração ou o desencanto. Escrevi esse desabafo com plena consciência de que se não o fizesse, teria pesadelos indigestos. Minha opinião não é relevante para quase ninguém, mas é relevante para mim e é possível até que algumas amizades fiquem estremecidas com minha reação. Mas preciso correr todos os riscos, mesmo sem ter qualquer pretensão de que possa convencer a quem quer que seja. Como educadora, passei por experiências boas e ruins. aprendi mais do que ensinei e talvez a maior lição que assimilei é que saber fazer as perguntas certas é tão importante quanto encontrar essas respostas. O que vi e ouvi nessa campanha política foi um bombardeio tão forte de acusações e denúncias, partindo de todos os lados, que ficou impossível imaginar um candidato que inspirasse algum nível de confiança. A primeira pergunta relevante é: 
Por que acusar é mais importante do que mostrar um programa? Alguém por acaso ignora que vivemos em meio a corrupção e jogo de interesses desde muito antes desse país ser um país? Será que ainda precisamos de tanta denúncia substituindo a divulgação de ações sérias?  Se uma população inteira não vê nenhum candidato digno de confiança, talvez seja o caso de parar de discutir, cruzar os braços e exigir justiça e punição para que possamos recomeçar do zero. e isso é inviável porque num sistema podre já não sabemos se quem julga e quem pune são parte do mesmo sistema.
A segunda pergunta que me faço diz respeito a um instinto de educadora que não me abandona: 
Nas mão de quem, está realmente a campanha política? A quem interessa desestruturar o país? Quem realmente atinge a maior parte da população não é, com certeza, nenhuma rede social. Essas representam nosso pequeno grupo de contatos, geralmente com interesses, nível de formação e atividades semelhantes às nossas. Por mais contatos que façam parte da minha rede - que não ultrapassam a casa dos 500 - muitos deles não são brasileiros, o que reduz ainda mais minha chance de atingir positivamente um número relevante de pessoas. Mesmo assim, o bombardeio negativo que percebi nessa campanha foi, pra dizer o mínimo, desrespeitoso. Deixei de assistir televisão porque me respeito. Não aceito ser manipulada nem receber notícias "maquiadas" ou falsas. Noticiários, novelas, programas de humor que não me fazem rir, são um verdadeiro deboche, um arremedo de mau gosto da vida dos brasileiros. A mídia, em geral, trata seu publico como marionetes que dançam conforme a música ditada pelo poder econômico. Nas redes sociais ou por e.mails que recebi, pessoas exigiam, com toda razão, mais educação, mais saúde, mais transportes, melhores condições de vida. Pessoas bem intencionadas defendem seus candidatos na forma que eu acredito ser a mais eficaz. Mas vi também muitas pessoas (muito mais do que as primeiras) que não apresentavam nada além de sua raiva e sua agressividade contra candidatos e/ou partidos. Isso aconteceu em todas as tendências.
Não me atrevo a comentar sobre todas as áreas de reivindicações, mas penso que devo comentar sobre educação, que é minha formação e minha vida. E aqui vem a terceira pergunta relevante:
O que é educação? 
Educação formal e educação familiar são duas componentes de um mesmo processo - formar um cidadão. Então cabem mais perguntas:
Quem educa?
Qual o papel da família?
Qual o papel da escola?
Qual o papel da sociedade e do estado?
Que cidadão tipo queremos formar?
Essas perguntas, uma vez respondidas levam à seguinte: 
Como formar o cidadão que desejamos?
Finalmente vem a pergunta mais incômoda; Quem define o perfil do adulto, cidadão, que uma sociedade deseja?
Responder a essa pergunta nos leva de volta para a política. A definição, ou melhor, o conceito desse cidadão é definido pelo ESTADO, com tudo o que esse termo representa - o regime político, o povo que nele vive, seus valores, filosofia de vida, devidamente registrados na Constituição que rege a vida da nação. No caso do Brasil, quem criou a Constituição foram os políticos eleitos por nós, como manda o regime democrático, mesmo que nem sempre tenha sido tão democrático. "Teoricamente", os valores expressos na Constituição representam os valores da sociedade que é regida por ela. Com todos os defeitos que possa ter, nossa Constituição é cheia de valores relevantes, mas tenho a sensação de que esses valores não tem sido reforçados na grande maioria da população, literalmente CONTROLADA pela ditadura das novelas, dos filmes de baixa qualidade, dos noticiários tendenciosos, muitas vezes mentirosos e seletivos - o que é uma outra forma de mentir; "não menti, só contei metade dos fatos..."
As "mass midia" vieram para ficar. Não tenho nenhuma ilusão quanto a isso, mas acredito que precisamos, com urgência, encontrar um caminho de escapar do poder de manipulação que representam. Precisamos aprender a conviver com esse novo mundo e sem um mínimo de espírito crítico, não vamos conseguir. Reafirmo minha fé no espírito humano. Vejo que muitas pessoas mantém sua dignidade intacta e lutam para conquistar um mundo mais justo para todos. Isso não fecha meus olhos para o lado negro da humanidade. Manipulação e gente mal intencionada sempre existiram. A diferença é que, com os recursos disponíveis, estamos vivendo um tempo de muita comunicação e pouca responsabilidade. O resultado é o que vimos no primeiro turno - elegemos, no estado (dito) mais politizado do país, pelo menos dois candidatos para cargos fundamentais, sem nenhuma qualificação para atuar como representantes de causas que afligem a sociedade. Não estou tentando descobrir explicação, porque não me considero capaz de encontrar nenhuma, mas acredito que falando o que passa pela minha mente, consiga vislumbrar qualquer caminho que me leve a encontrar uma saída. Hoje, dia do professor, assumo como obrigação essa busca por perguntas que possam conduzir a alguma resposta coerente. Agradeço toda ajuda que venha a acontecer e desejo que possamos chegar a respostas e caminhos que conduzam nosso país a dias mais solidários e a menores distâncias entre quem tudo pode e o resto do povo. 



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