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Tem dias em que a gente sente uma estranha sensação de estar fora do tempo. É como se o espírito estivesse reunindo forças para enfrentar uma tormenta, ou se preparando para mais uma virada. Não é um sentimento definido e nem algo que tenha necessariamente uma origem. Apenas acontece. Uma vida inteira não é suficiente para aprendermos como reagir nesses momentos sem ser simplesmente aguardando que passem ou que tudo fique mais claro. Em dias assim, a sensação de perigo ou de que algo está fora de controle pode pesar tanto que é preciso fazer alguma coisa além de esperar. Hoje foi um desses dias.
  Entre a necessidade de fazer qualquer coisa para não pensar ou de não fazer nada e deixar pra lá, optei por uma terceira atitude: tentar descobrir uma ponta do mistério - qualquer uma que ajudasse a desenrolar o nó.    Estamos vivendo mais um tempo de perdas dolorosas. Este ano tem levado pra longe de nós pessoas de enorme relevância na vida da sociedade brasileira. Gente que deixou sua marca e um legado que permanecerá por muitas gerações. Nessas últimas semanas vimos o avanço de uma guerra da qual ninguém sairá vencedor. Uma guerra marcado por ódios históricos, manipulações, revanchismos, injustiças e perdas irreparáveis. Não consigo imaginar o grau de sofrimento de muitos inocentes. O filme da semana completou-se com a queda de um avião que levava a bordo mais de cem pesquisadores da AIDS. Todos esses fatos fartamente mostrados e comentados nas redes sociais, geraram questionamentos que não param de girar na minha cabeça. Poucas vezes comento ou compartilho imagens ou comentários sem avaliar de que forma isso contribuiria para amenizar o desconforto geral. Na verdade, nem tenho certeza de que mostrar ou comentar uma guerra, por exemplo, em redes sociais, poderia sequer diminuir os danos por ela causados. Tenho a sensação de que estamos assistindo o sofrimento e a dor das pessoas envolvidas em fatos traumáticos, como quem assiste um filme ou joga um videogame, onde tudo se passa virtualmente. Sentados em nossas confortáveis cadeiras, vendo a vida acontecer num mundo virtual, no qual nada acontece verdadeiramente. O sangue corre na tela, as bombas caem na tela, pessoas sofrem na tela e fora do meu note, ou do meu tablet, ou do meu celular, não existe uma vida real acontecendo. Protestos e movimentos sociais na tela descarregam todas as tensões e esvaziam intenções verdadeiras.
Minha geração acompanhou tantas mudanças que já perdi a conta de todos os ajustes que precisei fazer nos meus próprios hábitos ou de quanto conhecimento precisei adquirir para poder conviver com uma nova sociedade, surgida tão rapidamente que não nos deu tempo para avaliar em que direção estamos sendo levados. Um fato que chamou atenção sobre a queda do avião, por exemplo, foi a ênfase sobre o fato de 100 pesquisadores de AIDS estarem no voo. Não discuto a importância dessas pessoas, nem reduzo a gravidade da perda de pesquisadores que poderiam descobrir recursos para salvar milhares de vidas. Mas é espantoso que, aparentemente, as demais vidas perdidas no mesmo acidente parecem ter menos valor, como se a "utilidade" de uma pessoa tivesse mais importância do que sua existência como ser humano que ama, que sonha, que tem alguém a sua espera.
Talvez eu ainda não tenha absorvido completamente as mudanças que vieram junto com toda essa tecnologia que avança com uma rapidez vertiginosa. Talvez o futuro realmente transforme a vida de uma forma tão radical que tudo girará em torno de imagens virtuais onde o sofrimento e o amor caibam numa tela gigantesca e na qual, com um clic, poderemos mudar de canal sem qualquer preocupação com consequências. Com certeza não verei esse futuro, mas espero que o mundo sobreviva a essa pressão virtual, porque não se come alimentos virtuais nem se respira ar virtual e duvido que um abraço virtual possa satisfazer nossa necessidade de sentir o calor de um abraço verdadeiro. Eu ainda preciso de vida real. Preciso do abraço de meus amigos, do calor da presença das pessoas que amo e de respirar o aroma do vento.

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