QUAL É O TEU SÍMBOLO? QUAL É O TEU SINAL?
Há momentos em que nos sentimos obrigados a fazer
mudanças drásticas, seja para agradar pessoas que amamos e grupos aos quais queremos integrar-nos, seja para viver de acordo com as
expectativas da sociedade em geral. Podemos mudar radicalmente o nosso corpo, ou
transformar nosso jeito de agir. Mas qual é realmente nossa verdadeira marca.
Com que sinais marcamos nosso caminho na criação de uma autoimagem coerente e
verdadeira? Até onde podemos transformar nossas vidas sem o risco de perder-nos
num emaranhado de valores e comportamentos que não preencherão nem um só minuto nossas expectativas de felicidade? É preciso, a cada dia, redescobrir
valores que estruturam nossa caminhada. Não há como ter absoluta certeza do
caminho a seguir, mas feita escolha, nossa segurança repousa sobre os valores
que trazemos em nosso íntimo, que são ao mesmo tempo apoio e impulso para a
caminhada.
A criatividade é considerada por C. G. Jung como um dos
instintos humanos. O processo criativo desencadeia transformações que nos permitem resignificar pontos importantes de nosso percurso existencial,
abrindo-nos um novo campo de experiências em nosso desenvolvimento. Para
ajudar o homem a atravessar as crises que acompanham sempre esses processos de
transformação, presentes nas mudanças de ciclos e na vivência de passagens (nascimento, adolescência, morte), os povos ancestrais dispunham de
rituais específicos. Encontramos ainda hoje alguns desses rituais atuantes em
nossa cultura (cerimônias de batismo, casamento, enterro, etc.), mas, em muitos casos, perdemos a conexão com seu sentido mais profundo.
As atividades que envolvem os processos artísticos revelam o seu potencial
terapêutico ao colocar-nos em contato com símbolos que guiam e estruturam o
nosso desenvolvimento, e que se fazem presentes em momentos cruciais, tais como quando algum evento em nossa vida obriga-nos a enfrentar mudanças profundas.
Envolvidos nos processos criativos, abrimos caminho para o diálogo com nossa alma e religando-a ao sagrado, o que nos capacita a atravessar as crises e a lidar
de forma mais integrada com as questões que nos são colocadas pela vida. A Arteterapia floresce justamente num momento em que a
humanidade se depara com uma espécie de caos coletivo, no qual carecemos de mitos e símbolos globais. Aliando-se ao processo de resgate da vida simbólica, a arteterapia traz à tona a dimensão do sagrado -
como era e ainda é entre os povos ancestrais o papel da arte - para comungar
com a existência humana.
Símbolos
(Álvaro de Campos)
Símbolos? Estou farto de
símbolos...
Mas dizem-me que tudo é
símbolo,
Todos me dizem nada.
Quais símbolos? Sonhos.
Que o sol seja um símbolo, está
bem...
Que a lua seja um símbolo, está
bem...
Que a terra seja um símbolo,
está bem...
Mas quem repara no sol senão
quando a chuva cessa,
E ele rompe as nuvens e aponta
para trás das costas,
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua senão
para achar
Bela a luz que ela espalha, e
não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é
o que pisa?
Chama terra aos campos, às
árvores, aos montes,
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar também é terra...
Bem, vá, que tudo isso seja
símbolo...
Mas que símbolo é, não o sol,
não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se
O sol entre farrapos finos de
nuvens,
Enquanto a lua é já vista,
mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doura a cabeça da costureira
que para vagamente à esquina
Onde se demorava outrora com o
namorado que a deixou?
Símbolos? Não quero símbolos...
Queria — pobre figura de
miséria e desamparo! —Que o namorado voltasse para a costureira.
Comentários