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Caminhos e caminhos









"As melodias que se ouvem são doces, mas as que não se ouvem
São ainda mais doces; assim delicadas flautas, tocai sempre,
Não para o ouvido sensual; mais sedutoras ainda,
Modulai para o espírito cantos silenciosos.
                      Keats, Ode a uma grega

Enquanto ouvia música, um hábito resgatado há pouco tempo, pensava nos muitos caminhos que percorremos na vida, alguns silenciosos, outros enriquecidos com os sons da natureza, outros ruidosos e perturbadores. Há caminhos que, depois de muito ruido, não nos levam a parte alguma e é preciso voltar atrás e começar tudo outra vez. Há outros que desaguam em lugares enlouquecidos de prazeres que beiram a loucura, assustam e nos fazem recuar. Há os caminhos tranquilos que levam aos limites do universo, fazendo-nos perder a noção do tempo e do espaço. Há também aqueles que nos deixam sem ação porque, apesar das aparências, mostram-nos uma realidade que conhecemos apenas de ouvir falar. Uma realidade que não faz parte da nossa biografia às vezes representada por um espaço físico, outra vezes incorporada num encontro de almas que não identificamos como parte da realidade. São esses caminhos que chegam em momentos fora do tempo e do espaço, que nos tiram o chão derrubando nossas certezas, provocando dúvidas paralisantes, questionando valores e pondo à prova decisões que nos pareciam imutáveis, são esses caminhos que nos forçam a mudar os planos e encarar de frente o fato de que a vida nunca é tão estável quanto gostaríamos que fosse. Curtir um momento bom, voltar atrás quando não é o que procuramos, ir em frente quando algum obstáculo parece intransponível, são atitudes que enfrentamos muitas vezes durante muitos dias de nossa vida. Mas são esses momentos de dúvida profunda que realmente nos fazem crescer ou estagnar na caminhada da vida exigindo um contato com tudo o que nos ajuda a centrar as emoções; seja a arte do desenho, seja a arte da música, o abraço de uma amiga atenta e pronta para nos ouvir ou simplesmente sentar sob uma árvore e apenas olhar o céu enquanto nuvens desenham formas aleatórias diante de nosso olhos turvos de dúvidas. Essas pausas na caminhada criam o ambiente para reforçar a coragem e encarar mudanças, antes que a vida toque em frente e nos deixe para trás com um sentimento de profunda frustração. Respirar fundo, aquietar a cabeça e deixar que o coração guie as decisões, pode ser um caminho de risco alto, mas provavelmente é o único que devemos tomar. São horas de ouvir cantos silenciosos! Que a vida não pare!

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