História de vida, longa e sinuosa, é sempre um tema escorregadio que percorremos cuidadosamente. Criança ativa, atenta a todas as mosquinhas e borboletas que cruzavam minhas brincadeiras e voavam pela sala de aula, desenhava antes de escrever. Um dia descobriram que eu já estava lendo e lá me fui para o primeiro ano. Não sei como aconteceu, porque continuei mais interessada nos insetos do que nos estudos. Horas sentada na terra, vendo a vida desenhada por formiguinhas atarefadas ou fazendo bolinhos de terra que as bonecas devoravam com o mesmo sorriso de louça. Bolinhas de gude, coloridas, brilhantes, faziam meus olhos sonharem com seu tilintar de jogo. Sempre ficava alguma esquecida na terra para compor meu tesouro.
Cresci brincando e escapulindo da vigilância rumo ao balanço, ao escorregador ou à liberdade de um pátio, na época, gigantesco! Uma árvore cuidava de mim com sua sombra fresca, a outra, com seus frutos e muitas outras com suas cores. Lápis na mão, sempre um rabisco no papel do pão ou no caderno escolar. E tome bronca pra não sujar o bendito caderno. Uma vez, desenhei num móvel com a ponta da tesoura. Não, não apanhei, mas a bronca e o castigo mostraram que era mais seguro desenhar no papel. A música chegou aos 7 anos de idade. Professora impaciente, piano só o dela. Mas já era o começo de uma grande parceria.
Veio a adolescência, colégio interno - que a vida tem suas surpresas - horários programados para todas as horas do dia. Sempre tinha um jeito de escapar e brincar mas, agora, pequenos períodos autorizados permitiam que desse corda à curiosidade em meio a livros da biblioteca da escola. Foi o começo de um amor eterno. Nosso despertar era às 6h e 20min, todos os dias, mas eu, curiosa, ficava na biblioteca até o último minuto permitido. O silêncio, o cheiro de livros empoeirados, as imagens de revistas geográficas, eram meus parceiros até as 23h. Oh tristeza quando avisavam para sair. O desenho? Este continuava presente. Desenhava tudo: árvores, personagens de desenho animado, mapas (os mapas eram feitos sempre duas ou três vezes, uma pra mim e outras para as amigas que não sabiam fazer ou tinham preguiça). Desenho pronto e alguém pedia de presente. Sobrou apenas um. nem sei porque, mas que bom que sobrou.
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| 15 ANOS |
Depois veio a liberdade de andar pela cidade. Fora do internato havia um mundo a ser descoberto. Minha amada cidade ainda era um Porto Alegre. Praças, parques, ruas, festas, um vizinho ilustre - Mário Quintana, e a vista o Hotel Magestic emoldurado pelo rio, preenchiam dias de juventude e sonhos. Segundo grau, o mundo para aprender, o desenho passou a ser utilitário. Latim, francês, inglês, português, história e muitas mais, preenchiam dias a meses. Finalmente, a universidade, formatura, casamento, filhos e a vida fluindo normal. Aqui abrevio essa narrativa num pulo para a volta ao desenho. Ele cobrava seu quinhão - o chamado era imperativo.
Próxima etapa - COM O LÁPIS NA MÃO.

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