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Coisas de gente velha


"A esperança é uma donzela encantadora, mas escorre por entre os dedos; a rememoração é uma linda mulher idosa, mas sem utilidade no momento; a repetição é uma esposa amada de quem a pessoa nunca se cansa. Pois é apenas do novo que a pessoa se cansa. Do velho ninguém jamais se cansa. Quando se possui isso, se é feliz (...) a vida é uma repetição, e esta é a beleza da vida." S. Kierkegaard - A Repetição / citado no livro "A Força do Caráter, de James Hillman.

"Os idosos repetem, quase literalmente. Se isto é um sintoma é também o estilo deles. Certa vez interrompi um tio prolixo, de 80 anos, no meio de uma de suas entediantes histórias de viagem. "Você já me contou esta", falei. Na mesma hora e tão irritado quanto eu, ele devolveu: "Gosto de contá-la." E que diabos tem de errado contá-la outra vez?" James Hillman



        Ao reler este capítulo do livro A Força do Caráter, de James Hillman, ocorreu-me imediatamente a associação com coisas da infância. Lembro de quantas vezes li e reli histórias infantis para meus filhos, ou de quantas vezes ouvimos seus disquinhos de contos e suas músicas favoritas. O começo e o final desta linda viagem chamada VIDA unem-se em detalhes sutilmente semelhantes. Enquanto a infância ouve a repetição, a velhice conta repetidamente a mesma história. Uma sensação agradável toma conta de mim enquanto leio. Poucos parágrafos depois, o autor refere-se a esta ligação entre infância e velhice. Enquanto a modernidade insiste em separar avós e netos vejo com otimismo uma crescente procura na direção oposta. Nossa organização social, por muito tempo negligenciou o papel do grupo familiar, tanto na formação de crianças, quanto no apoio aos velhos. A afetividade foi substituída pela necessidade de consumo. Todos trabalham exaustivamente buscando comprar objetos de desejo. Desejo este quase sempre criado, estimulado ou sugerido por marketings agressivos e insistentes. A falta de tempo para afetos levou à multiplicação de creches e clínicas geriátricas, em geral caras e com atendimento precário, no sentido mais elementar, e quase inexistente no sentido afetivo. Em que pese o caos político que abala o país, graças a ele, alguns questionamentos vieram à tona;

O QUE É EDUCAÇÃO?
QUEM EDUCA?
QUEM ENSINA?
ONDE E O QUE ENSINAR?
QUAL A META DO ENSINO?
QUE CIDADÃO QUEREMOS FORMAR?

        Por outro lado, numa população (mundial) envelhescente, outras questões passam a fazer parte das preocupações que angustiam tanto os velhos quanto os que, no momento, são a força de trabalho que move o país e têm responsabilidade com o próprio futuro. 

O QUE É VELHICE?
COMO ENVELHECER COM DIGNIDADE?
COMO MANTER OS CUSTOS DO ENVELHECIMENTO?
APOSENTADORIA É SINÔNIMO DE INATIVIDADE?
VELHOS PRECISAM DE AFETO?

          Não tenho solução para as questões econômicas que surgem desse impasse, mas sinto enorme preocupação com relação às formas com que nosso governo conduz as duas pontas da vida. Crianças  e jovens sem garantia de ensino de qualidade, sem a presença afetiva dos pais, sem perspectiva de escola públicas. Quantas famílias podem arcar com escolas particulares? Qual o custo emocional de ter pais e mães integralmente comprometidos com horas de trabalho suficientes para cobrir os custos de criar filhos? Por outro lado, a população de velhos cresce com outros parâmetros de saúde e comportamento. Se o lado clínico pode incapacitar alguns à revelia de sua vontade, a disposição de outros é de aproveitar a velhice da melhor forma possível. As condições de sanitarismo e os avanços da medicina prolongaram a expectativa de vida para além dos 80 anos. Como as famílias encaram esta nova face da velhice? Como os governos vão evitar as sequelas desagradáveis dessa nova ordem familiar? Há que considerar ainda, a população ativa, os adultos jovens ou de meia idade que sofrem as pressões mais fortes do consumo, dos valores distorcidos, dos afetos e sonhos deixados pra depois, da insegurança quanto ao futuro.
          São questões de caráter urgente, com tantas variáveis que não há como abordar todas nesse comentário. O ser humano tem o lado sinistro, thanatos,  que, em alguns momentos predomina, mas tem o lado positivo, com todo peso do instinto de vida, eros, que leva a buscar soluções em meio às convulsões mais graves. Não é possível nem sensato esperar que as soluções venham apenas do governo, especialmente deste que estamos presenciando. Somos todos responsáveis por viabilizarmos a necessária virada, repensando valores básicos, mudando atitudes, buscando harmonia e respeitando diferenças. Eu creio na força da vida e tenho certeza de que encontraremos caminhos.

"...Pois, na verdade cada homem é único, insubstituível; não pode haver outro eu; cada um de nós - isto é, a nossa alma, não a nossa vida, vale o universo inteiro." Miguél de Unamuno

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