Arte – vida – valores
Jane Maria Godoy B. – Artificis Atelier/Porto Alegre
“Talvez uma das mais funções mais
importantes da arte consista em conscientizar os homens da grandeza que eles
ignoram trazer em si.”
André Malraux
A história humana, tão curta quando inserida na historia do
universo, demonstra que momentos de crise profunda e momentos de bonança, ocorrem
não apenas como alternância no tempo, mas também como coexistência no espaço
planetário. Do ponto de vista humano, poucas coisas são realmente novas nesse
momento que estamos vivendo. Ciência e tecnologia avançam, a passos gigantescos,
oferecendo milhares de novas opções, que reduzem o esforço humano e prolongam o
tempo de vida oferecendo confortos inimagináveis, até mesmo para quem ainda não
chegou aos cinquenta anos de idade. Estes avanços, no entanto, contemplam
apenas o lado material da vivência humana. Na qualidade de ser social, nós humanos não avançamos com a mesma
velocidade. Em que pese a velocidade das informações e suas inevitáveis
consequências, o planeta ainda é um gigante repleto de núcleos humanos, aonde a
modernidade só chega como imagens distantes da parte rica do mundo. Ainda
dividimos o planeta em ocidente e oriente, países desenvolvidos e subdesenvolvidos,
gente do bem e gente do mal. Dentro desse quadro que, não raro, devora
esperanças, penso no meu papel não apenas como mulher num mundo que insiste em
não abandonar antigos ranços de gênero, mas também como arteterapeuta, artista e professora de
artes. O que a arte pode fazer pelo espírito humano? O que eu posso fazer como
parte desse tempo e desse mundo?
Revendo
antigas anotações encontrei este precioso texto perdido numa folha amarelada e
desgarrada do conjunto original. Peço perdão por não lembrar o nome do autor, perdido
com o resto do material, mas é tão significativo que não posso deixar de
transcrevê-lo aqui.
“Todos nós nos orgulhamos de nossa civilização ocidental. Foi para salvá-la
que participamos da maior matança que o mundo jamais conheceu; foi para que
vivêssemos que milhões de homens morreram e outras dezenas de milhões sofreram
atrozmente, e é para salvaguardá-la que as nações se armam e armazenam forças
prodigiosas, capazes de devastar continentes inteiros... O crescente aumento
das doenças mentais, dos desequilíbrios de todo tipo, oferecem-nos uma trágica
ficha de saúde do homem moderno... Talvez amanhã o homem venha a visitar os
planetas, mas qual será o conteúdo desse homem?... Entretanto o mundo moderno é
extraordinário, e não apenas não temos o direito de frear seu fulgurante
progresso, como temos o dever de trabalhar para esse progresso... mas nosso
labor seria vão se, paralelamente, não trabalharmos para devolver ao homem a
consciência de sua alma... As necessidades crescem mais depressa do que nascem
as coisas e o homem, escravo, debruça-se para colher os frutos da matéria e
acaba por cair de joelhos diante desse novo ídolo.”
As manifestações artísticas,
conscientes ou não, acompanham o ser humano desde que temos ciência de que é
possível imprimir nossa marca em paredes, pedras ou papel. Mudam os instrumentos,
mas o impulso de criar permanece como um sinal de nossa humanidade. Óxidos,
sangue, argila e mãos na parede que registraram a pré-história foram substituídos,
ao longo do tempo, por tintas, telas, pincéis, forjas e todo tipo de processo
ao alcance dos criadores de artes, até chegar este momento em que a tecnologia
nos presenteia com recursos ilimitados. Minha curiosidade natural e a ajuda
inestimável dos mais jovens colocaram-me por dentro do turbilhão do mundo
virtual e seus “pinceis” ou ferramentas. Sou afortunada por fazer parte de uma
época em que coexistem milhares de opções para criar, mas tenho consciência de
que faço parte de uma minoria que, por sorte ou/e por escolha, mantém viva a
curiosidade da infância.
Esta inquietação é o móvel que impulsiona
minha visão de mundo; a ferramenta que me faz perceber detalhes inexistentes
para muitas pessoas e admirar pequenas e grandes maravilhas do mundo. Sem esta
atitude de estar atenta nenhuma ferramenta seria útil para criar. Sem
curiosidade não há percepção profunda, sem esta percepção perdemos o respeito.
Fazer uso dos processos artísticos é um caminho para descobertas de valores
essenciais. Então, qual é o meu papel?
Aguçar curiosidade, desenterrar a intuição – ferramenta essencial do pensamento
humano – estimular a inquietação, entenda-se como “desacomodar da poltrona”,
provocar atitudes de amor pela vida, seriam expectativas excessivas? Talvez a
resposta seja sim. Mas quem disse que eu não posso tentar?
Jane em março/2017
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