Algumas coincidências fazem a gente pensar no inexplicável, pelo menos sob uma ótica lógica. Estava no facebook quando encontrei uma postagem do site "Crônicas de la Tierra sim Males". Abri o link e lá estava uma texto excelente sobre ensinar e aprender. Alguma coisa na minha memória agitou-se. Logo depois fui procurar, entre meus arquivos pessoais, material para uma oficina de criatividade. Sem ter uma ideia definida sobre o que faria, abri este arquivo - um texto de Paulo Freire. Foi então que percebi a coincidência. O texto que havia lido antes era um resumo deste. Paulo Freire, o grande educador brasileiro, muito mais reconhecido e lido no exterior do que no Brasil, merece ser constantemente lembrado.
Carta de Paulo Freire aos professores
Ensinar, aprender: leitura do mundo, leitura da palavra
NENHUM TEMA mais adequado para constituir-se em
objeto desta primeira carta a quem ousa ensinar do que a significação
crítica desse ato, assim como a significação igualmente crítica de aprender. É
que não existe ensinar sem aprender e com isto eu quero dizer mais do que diria
se dissesse que o ato de ensinar exige a existência de quem ensina e de quem
aprende. Quero dizer que ensinar e aprender se vão dando de tal maneira que
quem ensina aprende, de um lado, porque reconhece um conhecimento antes
aprendido e, de outro, porque, observado a maneira como a curiosidade do aluno
aprendiz trabalha para apreender o ensinando-se, sem o que não o aprende, o
ensinante se ajuda a descobrir incertezas, acertos, equívocos.
O aprendizado do ensinante ao ensinar não se dá
necessariamente através da retificação que o aprendiz lhe faça de erros
cometidos. O aprendizado do ensinante ao ensinar se verifica à medida em que o
ensinante, humilde, aberto, se ache permanentemente disponível a repensar o
pensado, rever-se em suas posições; em que procura envolver-se com a
curiosidade dos alunos e dos diferentes caminhos e veredas, que ela os faz
percorrer. Alguns desses caminhos e algumas dessas veredas, que a curiosidade
às vezes quase virgem dos alunos percorre, estão grávidas de sugestões, de
perguntas que não foram percebidas antes pelo ensinante. Mas agora, ao
ensinar, não como um burocrata da mente, mas
reconstruindo os caminhos de sua curiosidade — razão por que seu corpo
consciente, sensível, emocionado, se abre às adivinhações dos alunos, à sua
ingenuidade e à sua criatividade —o ensinante que assim atua tem, no seu
ensinar, um momento rico de seu aprender. O ensinante aprende primeiro a
ensinar mas aprende a ensinar ao ensinar algo que é reaprendido por estar sendo
ensinado.
O fato, porém, de que ensinar ensina o ensinante
a ensinar um certo conteúdo não deve significar, de modo algum, que o ensinante
se aventure a ensinar sem competência para fazê-lo. Não o autoriza a ensinar o
que não sabe. A responsabilidade ética, política e profissional do ensinante
lhe coloca o dever de se preparar, de se capacitar, de se formar antes mesmo de
iniciar sua atividade docente. Esta atividade exige que sua preparação, sua
capacitação, sua formação se tornem processos permanentes. Sua experiência
docente, se bem percebida e bem vivida, vai deixando claro que ela requer uma
formação permanente do ensinante. Formação que se funda na análise crítica de
sua prática.
Partamos da experiência de aprender, de
conhecer, por parte de quem se prepara para a tarefa docente, que envolve
necessariamente estudar. Obviamente, minha intenção não é escrever prescrições
que devam ser rigorosamente seguidas, o que significaria uma chocante
contradição com tudo o que falei até agora. Pelo contrário, o que me interessa
aqui, de acordo com o espírito mesmo deste livro, é desafiar seus leitores e
leitoras em torno de certos pontos ou aspectos, insistindo em que há sempre
algo diferente a fazer na nossa cotidianidade educativa, quer dela participemos
como aprendizes, e portanto ensinantes, ou como ensinantes e, por isso,
aprendizes também.
Não gostaria, assim, sequer, de dar a impressão
de estar deixando
absolutamente clara a questão do estudar,
do ler, do observar, do reconhecer as relações entre os objetos para
conhecê-los. Estarei tentando clarear alguns dos pontos que merecem nossa
atenção na compreensão crítica desses processos.
Comecemos por estudar, que envolvendo o ensinar
do ensinante, envolve também de um lado, a aprendizagem anterior e concomitante
de quem ensina e a aprendizagem do aprendiz que se prepara para ensinar amanhã
ou refaz seu saber para melhor ensinar hoje ou, de outro lado, aprendizagem de
quem, criança ainda, se acha nos começos de sua escolarização.
Enquanto preparação do sujeito para aprender,
estudar é, em primeiro lugar, um que-fazer crítico, criador, recriador, não
importa que eu nele me engaje através da leitura de um texto que trata ou
discute um certo conteúdo que me foi proposto pela escola ou se o realizo
partindo de uma reflexão crítica sobre um certo acontecimentos social ou
natural e que, como necessidade da própria reflexão, me conduz à leitura de
textos que minha curiosidade e minha experiência intelectual me sugerem ou que
me são sugeridos por outros.
Assim, em nível de uma posição crítica, a que
não dicotomiza o saber do senso comum do outro saber, mais sistemático, de
maior exatidão, mas busca uma síntese dos contrários, o ato de estudar implica
sempre o de ler, mesmo que neste não se esgote. De ler o mundo, de ler a
palavra e assim ler a leitura do mundo anteriormente feita. Mas ler não é puro
entretenimento nem tampouco um exercício de memorização mecânica de certos
trechos do texto.
Se, na verdade, estou estudando e estou lendo
seriamente, não posso ultra-passar uma página se não consegui com relativa
clareza, ganhar sua significação. Minha saída não está em memorizar porções de
períodos lendo mecanicamente duas, três, quatro vezes pedaços do texto fechando
os olhos e tentando repeti-las como se sua fixação puramente maquinal me desse
o conhecimento de que preciso.
Ler é uma operação inteligente, difícil,
exigente, mas gratificante. Ninguém lê ou estuda autenticamente se não assume,
diante do texto ou do objeto da curiosidade a forma crítica de ser ou de estar
sendo sujeito da curiosidade, sujeito da leitura, sujeito do processo de
conhecer em que se acha. Ler é procurar buscar criar a compreensão do lido;
daí, entre outros pontos fundamentais, a importância do ensino correto da
leitura e da escrita. É que ensinar a ler é engajar-se numa experiência
criativa em torno da compreensão. Da compreensão e da comunicação.
E a experiência da compreensão será tão mais
profunda quanto sejamos nela capazes de associar, jamais dicotomizar, os
conceitos emergentes da experiência escolar aos que resultam do mundo da
cotidianidade. Um exercício crítico sempre exigido pela leitura e
necessariamente pela escuta é o de como nos darmos facilmente à passagem da
experiência sensorial que caracteriza a cotidianidade à generalização que se
opera na linguagem escolar e desta ao concreto tangível. Uma das formas de
realizarmos este exercício consiste na prática que me venho referindo como
"leitura da leitura anterior do mundo", entendendo-se aqui como
"leitura do mundo" a "leitura" que precede a leitura da
palavra e que perseguindo igualmente a compreensão do objeto se faz no domínio
da cotidianidade. A leitura da palavra, fazendo-se também em busca da
compreensão do texto e, portanto, dos objetos nele referidos, nos remete agora
à leitura anterior do mundo. O que me parece fundamental deixar claro é que a
leitura do mundo que é feita a partir da experiência sensorial não basta. Mas,
por outro lado, não pode ser desprezada como inferior pela leitura feita a
partir do mundo abstrato dos conceitos que vai da generalização ao tangível.
Certa vez, uma alfabetizanda nordestina
discutia, em seu círculo de cultura, uma codificação (1) que representava um
homem que, trabalhando o barro, criava com as mãos, um jarro. Discutia-se,
através da "leitura" de uma série de codificações que, no fundo, são
representações da realidade concreta, o que é cultura. O conceito de cultura já
havia sido apreendido pelo grupo através do esforço da compreensão que
caracteriza a leitura do mundo e/ou da palavra. Na sua experiência anterior,
cuja memória ela guardava no seu corpo, sua compreensão do processo em que o
homem, trabalhando o barro, criava o jarro, compreensão gestada sensorialmente,
lhe dizia que fazer o jarro era uma forma de trabalho com que, concretamente,
se sustentava. Assim como o jarro era apenas o objeto, produto do trabalho que,
vendido, viabilizava sua vida e a de sua família.
Agora, ultrapassando a experiência sensorial,
indo mais além dela, dava um passo fundamental: alcançava a capacidade de
generalizar que caracteriza a "experiência escolar". Criar o jarro
como o trabalho transformador sobre o barro não era apenas a forma de sobreviver,
mas também de fazer cultura, de fazer arte. Foi por isso que, relendo sua
leitura anterior do mundo e dos que-fazeres no mundo, aquela alfabetizanda
nordestina disse segura e orgulhosa: "Faço cultura. Faço isto".
Paulo Freire (19/09/1921-02/05/1997)
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