Sempre senti uma forte rejeição de termos tipo "terceira idade", "melhor idade" e outros que têm surgido como substitutos da palavra "velhice", como se isso tornasse o fato mais aceitável. Nesse artigo de Eliane Brum, encontrei a descrição mais perfeita de meus próprios pensamentos e sentimentos sobre o tema. Por isso reproduzo aqui, na íntegra.
Me
chamem de velha
A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem
Me
chamem de velha
A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem
ELIANE
BRUM Jornalista, escritora e
documentarista. Ganhou mais
de 40 prêmios nacionais e
internacionais de reportagem.
É autora de um romance -
Uma Duas (LeYa) - e de três
livros de reportagem: Coluna
Prestes – O Avesso da Lenda
(Artes e Ofícios), A Vida Que
Ninguém Vê (Arquipélago
Editorial, Prêmio Jabuti 2007)
e O Olho da Rua (Globo).
E codiretora de dois
documentários: Uma História
Severina e Gretchen Filme
Estrada.
elianebrum@uol.com.br
@brumelianebrum
de 40 prêmios nacionais e
internacionais de reportagem.
É autora de um romance -
Uma Duas (LeYa) - e de três
livros de reportagem: Coluna
Prestes – O Avesso da Lenda
(Artes e Ofícios), A Vida Que
Ninguém Vê (Arquipélago
Editorial, Prêmio Jabuti 2007)
e O Olho da Rua (Globo).
E codiretora de dois
documentários: Uma História
Severina e Gretchen Filme
Estrada.
elianebrum@uol.com.br
@brumelianebrum
Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que
trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que
era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a
ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”. Pensei: “roubaram a
velhice”. As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem
muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma
epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a
morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que
“idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra
“velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo
que, se tivermos sorte, chegará para todos.
Desde que a juventude virou não
mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas
tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de
repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo.
Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho
anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão
distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não
violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo,
como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.
A velhice é o que é. É o que é
para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar perto da
morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda.
Negá-la é não só inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital.
Semanas atrás, em um programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a
morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha
entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta:
“Eu quero viver a minha morte”.
Na adolescência, eu acalentava a
sincera esperança de que algum vampiro achasse o meu pescoço interessante o
suficiente para me garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros
não existem, embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para
dizer que é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas essa é uma
obviedade que não nos leva a lugar algum. Que ninguém quer morrer, todo mundo
sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para engordar o nosso medo sem que
aprendamos nada que valha a pena.
A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado
providências para que a minha não seja apartada de mim. A vida é incontrolável
e posso morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa cama
e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que amenize a minha dor. Cada
um sabe do tamanho de sua tragédia, então esse é apenas o meu querer, sem a
pretensão de que a minha escolha seja melhor que a dos outros. Mas eu gostaria
de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o morrer será minha última
experiência vivida. Acharia frustrante perder esse derradeiro conhecimento
sobre a existência humana. Minha última chance de ser curiosa.
Há uma bela expressão que
precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o
contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem
contrários”. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse
texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A
velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la.
Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor,
envelhecer é perder valor. Os eufemismos são a expressão dessa
desvalorização na linguagem.
Não, eu não sou velho. Sou idoso.
Não, eu não moro num asilo. Mas numa casa de repouso. Não, eu não estou na
velhice. Faço parte da melhor idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque
eles soam bem intencionados. São os bonitinhos mas ordinários da língua.
O que fazem é arrancar o conteúdo das letras que expressam a nossa vida. Justo
quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta
confiná-las e esvaziá-las também no idioma.
Chamar de idoso aquele que viveu
mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos
afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é
fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala
de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser
apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está. Alguém vê um Boris
Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique Cardoso como
idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.
Idoso e palavras afins representam
a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar
destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se
adolescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são
incômodos porque usam fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam
com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar.
Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam
as recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não
desistiram de viver.
Basta evocar a literatura para
perceber a diferença. Alguém leria um livro chamado “O idoso e o mar”?
Não. Como idoso o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então essa
obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao
termo “idoso”: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com
velhos e velhas que velhavam...”.
Velho é uma conquista. Idoso é uma
rendição.
Como em 2012 passei a estar mais
perto dos 50 do que dos 40, já começo a ouvir sobre mim mesma um outro tipo de
bobagem. O tal do “espírito jovem”. Envelhecer não é fácil. Longe disso.
Ainda estou me acostumando a ser chamada de senhora sem olhar para os lados
para descobrir com quem estão falando. Mas se existe algo bom em
envelhecer, como já disse em uma coluna anterior, é o “espírito velho”. Esse é
grande.
Vem com toda a trajetória e é
cumulativo. Sei muito mais do que sabia antes, o que significa que sei muito
menos do que achava que sabia aos 20 e aos 30. Sou consciente de que tudo –
fama ou fracasso – é efêmero. Me apavoro bem menos. Não embarco em qualquer
papinho mole. Me estatelei de cara no chão um número de vezes suficiente para
saber que acabo me levantando. Tento conviver bem com as minhas marcas. Conheço
cada vez mais os meus limites e tenho me batido para aceitá-los. Continua
doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as minhas perdas. Troco com mais
frequência o drama pelo humor nos comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias
que me importam e jogo os entulhos fora. Torço para que as pessoas que amo
envelheçam porque elas ficam menos vaidosas e mais divertidas. E espero que
tenha tempo para envelhecer muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa
e tenho umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me livrar porque
não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais interessante, intensa e engraçada
do que sou hoje.
Envelhecer o espírito é
engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do
que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou
jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes,
fascinados pelas dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e
queremos buscar. É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.
Acho que devíamos nos rebelar. E
não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não deixar que nos
reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o
que temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda
chegará. Pode parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão
jamais escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro,
se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.
Quando chegar a minha hora, por
favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha
força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e,
para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a
coragem de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.
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