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Coragem para contar

Quantas vezes o medo nos paralisa em momentos de mudanças. Mas não é o medo que nos impede de seguir em frente. O que trava mesmo é a falta de coragem.



‎"A palavra CORAGEM é muito interessante. Ela vem da raiz latina cor, que significa "coração". Portanto, ser corajoso significa viver com o coração. E os fracos, somente os fracos, vivem com a cabeça; receosos, eles criam em torno deles uma segurança baseada na lógica. Com medo, fecham todas as janelas e portas – com teologia, conceitos, palavras, teorias – e do lado de dentro dessas portas e janelas, eles se escondem.

O caminho do coração é o caminho da coragem. É viver na insegurança, é viver no amor e confiar, é enfrentar o desconhecido. É deixar o passado para trás e deixar o futuro ser. Coragem é seguir trilhas perigosas. A vida é perigosa. E só os covardes podem evitar o perigo – mas aí já estão mortos. A pessoa que está viva, realmente viva, sempre enfrentará o desconhecido. O perigo está presente, mas ela assumirá o risco. O coração está sempre pronto para enfrentar riscos; o coração é um jogador. A cabeça é um homem de negócios. Ela sempre calcula – ela é astuta. O coração nunca calcula nada."

- Osho –


Em todos os momentos decisivos, precisamos "pensar com o coração" ! É disso que a gente esquece e é o falta para que nossas decisões criem força de realização. As voltas que a vida nos faz dar significam que não somos programados para acomodação e sempre que ficamos muito tempo quietos, é preciso um chacoalho para acordarmos. Assim é na profissão que escolhemos, na vida que vivemos todos os dias fazendo escolhas constantes. Por maior que sejam as mudanças, nosso cerne ainda é o mesmo. Mudam os hábitos, renovam-se as atitudes. Mas tudo ainda somos nós. 

O medo, já dizia Mira Y Lopes, é o grande gigante da alma, é a mais forte e mais atávica das nossas emoções. Somos educados para o medo, para o não-ousar e, no entanto, os grandes saltos que demos, no tempo e no espaço, na ciência e na arte, na vida e no amor, foram transgressões, e somente a coragem lúdica pode trazer o novo, e a paisagem vasta que se descortina além dos muros que erguemos dentro e fora de nós mesmos.

Sempre tive um fascínio maior pela caminhada do que pelo ponto de chegada, mas só agora, depois de muitos tropeços, depois de levantar e continuar apesar de dores e cicatrizes, começo a entender que caminhar significa estar de mãos dadas com o risco de errar, mas significa também, assumir o risco de viver todas as mais belas paisagens que a vida pode oferecer. Aquelas paisagens onde paramos apenas para contemplar; onde paramos para molhar os pés e mergulhar na água fresca; onde paramos para sentir o vento frio pedindo um abraço; onde se faz necessária a pausa antes de retomar o caminho. 

Desenhar, criar livros, escrever, cantar, são as vezes caminho, outras vezes pausa. Começo a esboçar um livro com a pretensão de contar um pouco de minha caminhada. Não, uma canção, mas um livro de artista onde as canções por certo vão parecer em forma de imagens. Lendo "Martin Fierro" esta maravilha da literatura sul americana, encontrei esses versos preciosos cantados pelo herói

Atención pido al silencio
y silencio a atención,
que voi en esta ocasión,
si me ayuda la memoria,
a mostrarles que mi historia
le faltava lo mejor.

Viene uno como dormido
cuando vuelve del desierto;
veré si a explicarme acierto
entre gente tam bizarra,
y si al sentir la guitarra,
de mi sueño ma despierto.
..........................................
Gracias le doy a la Virgem,
Gracias le doy al Señor,
Porque entre tanto rigor
y habiendo perdido tanto,
no perdi mi amor al canto
ni mi voz como cantor.

Que cante todo viviente
otorgó el Eterno Padre:
cante todo  el que le quadre
como lo hacemos los dos,
pues solo no tiene voz
el ser que no tiene sangre.
....................................
Y con la cuerda tirante,
dende que esse tono elija,
yo no he de aflojar manija
mientras que la voz no pierda, 
si no se corta la cuerda
o no cede la clavija
..................................
Y empriéstenmé su atención
si ansí me quieren honrar,
de no, tendré que callar,
pues el pájaro cantor
jamás se para a cantar,
en el árbol que no da flor.

José Hernández - Martin Fierro





Arte digital sobre foto

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