OLHOS DE DEUS
Resumo e tradução de Jane M. Godoy Becker
Em julho de 2011
Artificis Atelier – Porto Alegre
Acima: Fotos de atividade em oficina de Arteterapia.
O Olho de Deus é uma ferramenta ritual, um objeto mágico e símbolo cultural, cuja
origem está ligada aos índios Huichol, do México. Embora o mito apareça em
outras culturas, o mais conhecido é o representado pelo objeto “Sikuli”, tecido com fios coloridos
sobre uma estrutura composta de duas varetas. O Sikuli ou Olho de Deus
evoca a tecelagem e suas associações espirituais. Para os povos do oeste mexicano
o Sikuli é o símbolo do poder de ver e entender
o desconhecido ou o que está oculto – o
mistério.
Originalmente
era composto por duas varas cruzadas formando quatro pontos que representam os
processos elementais terra, fogo, ar e
água. Quando uma criança nasce, seu pai dá início à confecção do “Olho de
Deus” tecendo o centro do olho. A cada ano completado, ele acrescenta voltas ao olho central até que a
criança complete cinco anos. O amuleto acompanhará sempre seu dono,
protegendo-o e auxiliando a desvendar os mistérios da vida. Uma versão um pouco
diferente é dada pela Dra. Patrícia Pinna, (psicóloga
e arteterapeuta, pesquisadora dos mitos das culturas pré-colombiana), o
centro, ou miolo, representa os olhos de Deus velando pela criança e os fios
coloridos representam os pedidos feitos a Deus (ou aos deuses) – sorte, saúde,
etc. O Olho de Deus era pendurado sobre o berço da criança e, a cada ano, um
novo olho era confeccionado até que acriança completasse cinco anos de vida,
quando então seria capaz de confeccionar seus próprios Olhos de Deus.
Estes
objetos, ou amuletos, originais raramente são encontrados hoje. No México,
ainda hoje, este “olho mágico” é pendurado ao lado direito da porta de entrada
de uma casa, como amuleto de proteção. A beleza de suas formas com as variações
adaptadas ao “gosto” moderno é oferecida, em forma de artesanato, em muitas
feiras mexicanas.
Os
quatro pontos representam os processos elementais – terra, fogo, ar e água.
Segundo Zelaya, o Sikuli (com design
do “Olho de Deus”) é incluído numa grande tecelagem plana, como lembrança do
poder da unidade holística que é central nas crenças huichol, mas isto não é o
mesmo que a cruz ou “olho de deus”, tecida para cada criança. O sikuli é bem
guardado ao longo da vida da pessoa, como um talismã de proteção espiritual,
saúde e bem estar que poderá ser utilizado pelo indivíduo ou pelo xamã para
cura ou outros rituais. Sua finalidade principal é garantir vida longa e saudável.
As cores utilizadas têm significados diferentes: vermelho – a própria vida;
amarelo – o sol, a lua e as estrelas; azul – o céu e a água; marrom – o solo;
verde – a vegetação; negro – a morte.
Numa
outra versão encontramos o Nierika –
fio utilizado nos ranchos tradicionais Huichol, representado um deus ou ancestral coletivos. Para os huichol o
termo nierika significa uma imagem, uma aparência ou uma representação sagrada,
etimologicamente enraizado no verbo NIERIKA – VER. Encontrados na maioria dos
lugares sagrados dos huichols – santuários, casas (xiriki), nascentes, cavernas
e templos. Nas cerimônias rituais, pelo uso do peyote (alucinógeno), os nativos
recebiam orientação de seus deuses, embora só alguns conseguissem ver os
“olhos” de deus por estes emitirem uma luz intensa e avassaladora.
Para mostrar aos demais a visão que
tinham, os xamãs teciam o Nierika
com varas e fios de algodão fiado e colorido, aos quais mesclavam vários tipos
de frutas, flores, sementes e outros materiais que contribuíssem para dar forma
e sentido ao objeto. Referido como um espelho de duas faces é um canal
recíproco mágico; um caminho. O “olho”, “buraco” ou “espelho” é o portal mágico
através do qual a humanidade e as divindades percebem-se uns aos outros. No uso
ritual, o Nierika é um rosto do sol, da terra, de um cervo, do vento, do peyote
e o rosto da pessoa que faz a oferta. È também um portal para entrar em outros
estados de consciência ou no mundo espiritual. Para os huichol, há cinco
sentidos: cada um dos pontos cardeais e o quinto – o ponto central ou “olho”
que é a fonte espiritual de visões, energia e iluminação.
Atualmente
o objeto “Nierika” é encontrado em versões sofisticadas, graças à
disponibilidade de um espectro maior de fios tingidos e sintéticos que
resultaram em obras de alta qualidade. O realismo inspirado na mitologia é a
base das pinturas em fio. As visões inspiradas pelo peyote auxiliam na criação
dos desenhos que os huichol utilizam na sua arte. Os nierikas representam a
essência da própria vida, sustento, saúde, realização e boa sorte. Esta
mandalas peyote, ou nierika, simbolizam a entrada para o mundo espiritual. Como
objetos de poder importantes, eles são frequentemente encontrados nos centros
de pinturas a fio. Cada mandala é individual e em sua confecção utilizam-se
muitos dos padrões de desenhos sagrados. Para os huichol, a vida é objeto de
oração constante, por isto o nierika deve ser pendurado num lugar acima deles e
com vista constante. Como explica Lumholtz, todas as fases de sua vida são
oração: o plantio, a colheita, as peregrinações ao peyote, a arte, a tecelagem,
a pérola, a pintura de rosto e de fios – tudo encarna em símbolos de oração.
Bibliografia
Corelis, Ângela (sem data). Huichol Índios, suas
artes e símbolos
Fonte: http://www.mexconnect.com/mex_huit.htm
Hale, Vincent (2001). Olho de Deus (Ojo de Dios).
Lumhotlz, Carl S.
Simbolismo dos Índios Huichol, V.III, 1900-1907
Negrín, Juan (2003). Nierika
Bernardo, Patricia Pinna (2009)
Valadez, Susana (1994). “Os Huichols: Uma Cultura em
Transição”
Zelaya, José (2005). Arte Del
Pueblo.
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